O homem do campo e o homem da cidade: representações da vida

Estando em contato com uma coletânea de textos sobre Educação do Campo, destacamos um que expõe visões de mundo e significados que o homem teceu sobre vizinhança, riqueza, distância, tempo, trabalho, solidariedade e segurança. São significados construídos a partir de suas experiências de vida e da interação com outros sujeitos. O texto selecionado intitula-se “Cultura Urbana e Cultura Rural: diferentes olhares”. É de autoria de José Antenor Coelho. Aqui, nós fazemos uma apresentação das principais mensagens expostas por ele. É uma maneira de conhecermos melhor as representações do camponês e do homem da cidade na sociedade brasileira.

Distrito Marsilac, cidade de São Paulo

Quem é o meu vizinho?

Na cidade, a proximidade entre as casas define os vizinhos. Trata-se de uma proximidade física. O vizinho é aquele que mora próximo, mas com ele não se tem necessariamente maior contato.

No campo, é a proximidade entre as propriedades de terra que define a vizinhança, bem mais do que entre as habitações. Lá, não há ruas. A proximidade é ligada à relação pessoal. O vizinho é aquele com quem se tem relação de amizade e ajuda mútua.

No bairro pobre de uma cidade em desenvolvimento existem relações que, de certa forma, se assemelham às do campo, mas isso tende a desaparecer com a ascensão econômica das pessoas, visto que elas mudam de bairro e, portanto, deixam de fazer parte daquele grupo.

A compreensão do que seja a riqueza

Na cidade, rico é aquele sujeito que possui bens materiais. Automóveis caros, casas em bairros nobres e roupas de grife estão entre os elementos simbólicos da riqueza.

No campo, ser rico é ter força para trabalhar, uma família, condições de se alimentar e ter saúde. Essas condições se sobrepõem ao dinheiro. O trabalho é visto como necessidade e o dinheiro, como consequência.

Distância e mobilidade

Para o homem do campo, aquilo que é alheio ao seu meio torna-se distante. A distância está ligada à dificuldade de compreender os signos diferentes daqueles aos quais está habituado. Esse é um dos motivos pelos quais o camponês não se sente muito à vontade na metrópole.

A cidade é um “outro mundo”, mas apesar disso o camponês quer ficar ali, pois voltar ao campo seria admitir que ele fracassou em seu projeto. Resta-lhe adaptar-se ao novo modo de vida e de mobilidade. No campo, o deslocamento se dava caminhando, utilizando animais e, mais recentemente, com o uso de motocicleta.

Na vida do homem urbano, quando não se pode fazer determinado percurso caminhando, ele considera que o local aonde pretende ir é distante, mas as possibilidades de acesso parecem diminuir a distância, visto que reduz o tempo de percurso, o que muda sua maneira de ver o espaço. As noções de distância e mobilidade têm relação com o tempo e o espaço, e recai na questão financeira. Quanto mais recurso tiver, mais mobilidade terá.

A relação com o tempo

No campo, despertar para um novo dia significa o retorno ao trabalho.  À noite, as horas de descanso e sono significam preparar-se para o dia de amanhã, nova oportunidade de trabalhar. Natureza, clima e outros fenômenos naturais são atribuídos ao sagrado.

O envelhecimento do corpo é visto de modo tranquilo; a idade avançada não é motivo de vergonha, pois a experiência de vida é algo importante. As doenças e a morte fazer parte do tempo que passa.

Na cidade, nossa relação com o tempo nos força a um ritmo acelerado, pois precisamos aproveitá-lo ao máximo. As crianças iniciam sua vida escolar cada vez mais cedo. A vida é organizada em função de horários fixos. Trabalha-se bastante para manter certo padrão de vida ou conquistar algo ainda melhor. Apesar de determinadas conquistas, parece que o homem urbano está sempre insatisfeito com alguma coisa.

Trabalho e dinheiro

No campo, trabalhar é viver. O trabalho torna digno o homem. Cuida-se da propriedade rural, da criação de animais, da própria casa, dos filhos, da casa do patrão. O trabalho não é apenas um meio de ganhar dinheiro; o mesmo tem um sentido mais amplo. No entanto, fica evidente a limitação das oportunidades. Desenvolve-se quase sempre as mesmas atividades.

Na cidade, temos as oportunidades variadas. A possibilidade de adquirir dinheiro tem um significado diferente daquele do campo. O poder de compra é algo expressivo na vida do homem urbano, bem como o status social.

Nos bairros periféricos conta-se com a solidariedade dos vizinhos. O camponês que ali chegou entende que o lugar de ganhar dinheiro é a cidade, mas a concorrência é grande. Percebe a necessidade de formação escolar, algo a que não teve acesso.

A solidariedade entre as pessoas

No campo, o homem é solidário com seus pares; é preciso ser solidário para sobreviver. As trocas de serviços e de favores fazem parte da cultura dessas pessoas. Nas cidades, em bairros periféricos, a necessidade de ajuda mútua é ainda maior. E aquele citadino que conquistou melhores condições de vida vê nesse ato um meio de demonstrar gratidão pelo apoio que recebeu um dia.

Em bairros de classe média, a solidariedade se manifesta de outra maneira. Acontece através do apoio a instituições religiosas, civis e grupos de atuação, encarregados de dar assistência às pessoas que se encontram com algum tipo de necessidade.

Segurança

No campo, segurança é ausência de medo; vive-se de modo mais descontraído do que na cidade, uma vez que não há muita preocupação com a violência. Os medos normalmente são relativos às secas, a outros fenômenos naturais e às doenças.

Nos bairros pobres das grandes cidades, a insegurança é algo constante. Sente-se medo do desemprego, da violência, do futuro, da incerteza da ascensão social. Ao mesmo tempo em que há solidariedade há também uma realidade marcada pela tensão e insegurança.

No campo ou na cidade, o meio influencia nossa maneira de viver. Os valores culturais, econômicos, sociais e morais, presentes na vida dos seres humanos, são transmitidos às novas gerações. Torna-se necessário intervir conscientemente na formação dos diversos grupos sociais e na preparação de um meio ambiente ajustado às necessidades de todos nós.

Redação: AtoEscrito

REFERÊNCIA

COELHO, José Antenor V. Cultura Urbana e Cultura Rural: diferentes olhares. In: UEPB (Org.). Concepção e Fundamentos da Educação do Campo (Coletânea de textos didáticos). UEPB, 2012.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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