O “Partenon de Livros”, de Marta Minujín, continua aguardando novos títulos

A instalação da artista plástica Marta Minujín, no Documenta 14, é uma réplica do Partenon de Atenas, templo construído no período 447-432 a.C., dedicado à deusa grega Atena, da sabedoria e das artes. Símbolo da democracia, a ideia é atribuída a Péricles, influente estadista, um dos principais líderes democráticos daquela época.

Agora o templo é recriado, não mais feito de mármore e, sim, com 100 mil livros vindos de várias partes do mundo e que, em algum momento, em algum lugar, foram proibidos ou sofreram alguma censura. Com a instalação é feita uma homenagem à história, ao conhecimento e, ao mesmo tempo, um alerta contra os perigos deste tipo de proibição.

Documenta 14 é uma exposição internacional de arte contemporânea, que ocorre tradicionalmente em Kassel, na Alemanha, a cada cinco anos. Em 2017,  está sendo realizada também em Atenas, onde teve início no dia 8 de abril e se estende até 16 de julho. Na cidade de Kassel, o período é de 10 de junho a 17 de setembro. Lá, encontra-se o Partenon de Livros, na praça Friedrichsplatz, local que foi palco de uma fogueira, no dia 10 de maio de 1933, para destruir 2.000 obras banidas pelos nazistas.

No site do evento, Marta Minujín informa que continua aguardando mais livros. Portanto, se você tiver algum que foi proibido, pode doar e participar da construção desse projeto. Professores e alunos da Universidade de Kassel organizaram uma lista de títulos proibidos ou que causaram mal-estar político. Conta até o momento com mais de 70.000, dentre os quais encontram-se “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol; “Cândido”, de Voltaire; “A Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht; “Fundamentos da Teoria Geral da Relatividade”, de Albert Einstein; “O Príncipe”, de Maquiavel; “Don Quixote de la Mancha”, de Miguel Cervantes; “O Valente Soldado Chveik”, de Jaroslav Hasek; “Poeta em Nova Iorque”, de Federico Garcia Lorca; “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera; “O Alquimista”, de Paulo Coelho; “A Metamorfose”, de Franz Kafka; “Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”, de Pablo Neruda; “Manifesto do Partido Comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels; “Doutor Jivago”, de Boris Parternak; e “O Princepezinho”, de Saint-Exupéry.

A artista já desenvolveu um trabalho similar em dezembro de 1983, na cidade de Buenos Aires, quando a Argentina, seu país natal, saía da ditadura civil-militar e caminhava rumo ao estabelecimento da democracia. Marta Minujín conhece bem a realidade contra a qual protesta. A ditadura que esse país vivenciou, de 1976 a 1983, causou fortes traumas na sociedade. As mortes, torturas, desaparecimentos, sequestros, adoções ilegais são algumas das ações arbitrárias enfrentadas por muitos. O Partenon de Livros celebrou a esperança de dias melhores e a liberdade de expressão. Permaneceu durante três semanas, passando a ser demolido para que as pessoas levassem as obras para suas casas.

A instalação atual, na Alemanha, permanecerá até setembro, momento de finalização do Documenta. Os alemães e os turistas também poderão pegar os livros para si. Este é o desejo da autora do projeto e de seus colaboradores.

Marta Minujín, 74 anos, é uma das principais artistas conceituais da América Latina. Desde os anos 60 é conhecida por suas instalações provocadoras, pelas grandes obras em espaços urbanos e a participação do público em suas criações. Através do Partenon de Livros, faz um verdadeiro manifesto contra o ódio e a intolerância. A mensagem presente na essência do seu trabalho sugere que a sociedade se mobilize na denúncia de todas as formas de censura.

por AtoEscrito   

REFERÊNCIAS

CRUZ, Valdemar. A biblioteca dos livros proibidos. 02 jul. 2017. Disponível em: http://expresso.sapo.pt. Acesso em: 08 jul. 2017.

DOCUMENTA 14. Chamada de doação de livros para The Parthenon of Books. [s.d.]. Disponível em: www.documenta14.de. Acesso em: 08 jul. 2017.

NOVARRO, Marcos; PALERMO, Vicente. A Ditadura Militar Argentina 1976-1983: do Golpe de Estado à Restauração Democrática. São Paulo: USP, 2007. Tradução: Alexandra de Mello e Silva.

IMAGENS: 1-Documenta 14; 2-Marta Minujín; 3-Kai Pfaffenbach/in.reuters.com.

 

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