Reflexões da psicóloga Maria Antonieta Motta sobre o luto das mães que entregam seus filhos em adoção

Na América-Latina, as pesquisas sobre adoção são vastas nas áreas de Ciências Sociais e Ciências Jurídicas, referentes às crianças adotadas e aos pais adotantes. No entanto, em se tratando da mãe que entrega o filho, os estudos são muito escassos. As necessidades dessas mulheres, motivos, história familiar, aspectos psicológicos que influenciaram sua decisão são ignorados. Em países como Austrália, Canadá, Estados Unidos e alguns da Europa, a dedicação a este tema é algo mais frequente.

No Brasil, a carência de estudos nos deixa desinformados quanto aos dados que revelariam o que significou para as mães a separação de seus filhos e o que aconteceu com suas vidas daí em diante. Considerando relatos presentes, em grande parte, em bibliografia estrangeira e realizando uma pesquisa em uma instituição de abrigo na cidade de São Paulo, a psicóloga Maria Antonieta Motta faz um profundo estudo sobre esta temática e observa que a tristeza e o remorso se fazem presentes quando o processo de adoção está concluído e mesmo antes, quando a afirmação sobre a entrega ainda é apenas uma ideia. Os estudos indicam que essa decisão se faz acompanhar de fortes conflitos e conduz a dificuldades interpessoais, sentimento de perda e depressão. Em alguns casos, a separação entre mãe e criança causa um luto que parece não ter fim.

Embora sejam vistas pela sociedade como voluntárias, as mães sentem que a entrega do filho é a opção de que dispõem diante da realidade que vivenciam: grandes dificuldades econômicas, pressão familiar, o abandono por parte do pai da criança, o estigma da maternidade ilegítima, falta geral de apoio.

Algumas das mulheres entrevistadas por Motta (2005) afirmaram que a entrega do filho tornava-se menos sofrível por acreditarem que estavam fazendo o melhor pela criança e também consideravam a felicidade dos futuros adotantes. As reflexões de Bromberg (1996) mostram que as mães biológicas carregam consigo um luto “não autorizado” pela sociedade, o que dificulta ainda mais sua ação ou expressão. Sabendo que não devem falar do filho perdido, isolam-se com sua culpa.

Em nosso país, a mãe que entrega o filho em adoção sabe que não deve procurá-lo, não tem acesso à possibilidade de encontrá-lo, mas, de sua parte, pode haver a expectativa de algum dia reunir-se a ele. Quando isso ocorre, como nos casos de “entrega direta”, normalmente ela é temida, pois os pais adotivos sentem-se ameaçados de que a mãe biológica leve a criança.

O fato de saber pouco ou nada sobre o filho pode desenvolver fantasias perturbadoras nas mães, como o medo de que a criança esteja morta, infeliz ou sentindo ódio por ela. Os estudos de Shand (1961) revelam que o ato de buscar a criança perdida faz parte do processo de luto e costuma ocorrer em simultâneo ao período de sentimento de raiva, embora se apresente também em outras circunstâncias. Algumas mães buscam informações para construir uma imagem mental da criança; há as que procuram seu rosto na multidão, comportamento que pode persistir por muito tempo.

Segundo Jones (1993), elas tendem a desenvolver sintomas que constituem a “síndrome da mãe biológica”, como os pesadelos recorrentes que fazem parte do processo de luto. Alguns dos sonhos relatados referem-se à violência e dor, cenas de perda da criança, o reencontro com o bebê que está ferido ou morto, cenas de rapto e abuso, pessoas sem rosto roubando a criança de sua mãe ou mesmo bebês que, ao serem encontrados, mostram-se sem rosto. Após uma fase de entorpecimento e raiva, frequentemente a mãe sofre depressão; além disso, podem surgir problemas como baixa autoestima, autorrecriminação, manifestações de ódio e violência.

Kovacs (1996) chega mesmo a dizer que boa parte das mães que entregam seus filhos vivencia um sofrimento que corresponde ao dos enlutados por morte, dadas as características desse tipo de perda: a ruptura do vínculo, a dor, o viver com o desconhecido. São sensações que podem ocorrer também em casos de divórcios ou de doenças, momentos em que se configura uma perda significativa entre vivos, sendo que, no caso das mães, há um agravante: elas não contam com a solidariedade das pessoas.

Os profissionais envolvidos nos processos de entrega e adoção

De um modo geral, quando a criança é entregue, seja por meio da entrega “voluntária” ou por destituição do pátrio poder, não se fala mais na mãe biológica. Acredita-se – e lhe é dito – que a partir de então ela poderá refazer sua vida, esquecerá o filho e a experiência pela qual passou. Os próprios profissionais que trabalham no processo deixam-se influenciar pela ideia de que essas mulheres de fato esquecem tal experiência e conduzem suas vidas normalmente.

O luto parece ser ignorado por receio de que a atenção dispensada ao mesmo faria revelar uma realidade marcada por imperfeições. Reconhecer a existência de sofrimento, por parte da mãe biológica, levaria ao questionamento da pressuposição de que o processo de adoção favorece todas as partes envolvidas: a pessoa adotada, os pais adotivos, a mãe ou pais biológicos. No estudo feito por Jones (op. cit.), muitas das mães entrevistadas afirmaram que, embora determinados profissionais lhes dissessem que o melhor a fazer era entregar o filho, elas foram tratadas com menosprezo por terem tomado essa decisão.

Contradição é algo que se revela também nas próprias mães em relação ao seu direito de enlutar-se, pois se veem diante de uma proibição para o enlutamento, o que faz com que sua dor seja autoinfligida. Elas vivenciam o que Doka (1989) define como luto “não franqueado”, aquele em que uma pessoa sofre uma perda, mas não tem a oportunidade de lamentar-se publicamente, pois não é reconhecida pela sociedade. A revelação dessa dor possivelmente resultaria em uma resposta social de forte teor contra a pessoa enlutada. Assim, falta-lhe oportunidade de compartilhar seus sentimentos, inclusive com outras pessoas que enfrentam o mesmo problema.

Leitão Fernandes (1989) observa que existem apenas três circunstâncias que fazem a sociedade aceitar a decisão de uma mulher de entregar o filho: as que são atrasadas mentais, miseráveis ou prostitutas. Ocorre que pessoas que se encontram nessas situações já são excluídas pela sociedade dita normal. Sendo assim, a “compreensão” fica apenas no nível da aparência. Na realidade, há aí um preconceito mais profundo.

Sentindo-se desamparadas, elas utilizam mecanismos de defesa para lidar com os conflitos advindos da entrega, sendo a negação o mais frequente. Motta apresenta esse conceito à luz das análises de Laplanche e Pontalis. Trata-se de um “processo pelo qual o indivíduo, embora formulando um desejo, pensamento ou sentimento, até aí recalcado, continua a defender-se dele negando que lhe pertença” (apud Motta, p. 91).

Quando a sociedade não reconhece essa dor, a pessoa que sofre passa a entender que enlutar-se é desnecessário. Muitas mães que entregam seus filhos negam ter havido uma perda e, na tentativa de se protegerem da dor, buscam justificativas racionais. Os estudos sobre os relatos dessas mulheres mostram que há situações em que o problema é por elas adiado, uma vez que lidam com a questão como se não lhe dissesse respeito e, assim, chegam ao final da gravidez com aparente tranquilidade e mesmo frieza. Dado o alheamento de si mesmas, não conseguem mobilizar recursos psicológicos e materiais para buscar solução para o problema.

A psicóloga compreende que as mães que entregaram seus filhos e não vivenciaram o luto encontram-se num processo de negação que pode até ser duradouro, mas chegará o momento em que o sentimento de tristeza profunda ocorrerá. Expressões como “Eu não queria mesmo o filho” ou “Eu não sinto nada por ele” podem ser exemplos desse mecanismo de defesa.

Quando as mães não têm consciência da própria realidade emocional

Algumas das mulheres brasileiras entrevistadas pela psicóloga afirmaram que não desejavam ver o filho no momento do parto ou depois dele, algo considerado frieza ou indiferença pelos profissionais da área de saúde e por aqueles ligados ao processo de adoção. Para as mães, parece não existir um vínculo afetivo. É como se elas procurassem não reconhecer a existência de um relacionamento prévio, possivelmente como defesa para evitar o sofrimento que sentiriam.

Em muitos casos, como a própria mãe acredita não ter interesse pelo filho, entende que não há motivo para vê-lo. No entanto, quando a criança lhe é apresentada, sem que ela espere, sua reação demonstra fortes emoções, a dúvida e a dor se fazem visíveis.

Kauffmann (1989) destaca que muitas mulheres que passaram por experiências como essas têm dificuldade de levar adiante uma vida conjugal. Há as que vivenciam as consequências na relação com outros filhos, tornando-se distantes afetivamente; e há também os casos em que elas lidam com seus filhos com excesso de proteção.

Algumas das mães entrevistadas por Jones (op. cit.) passaram a inventar o próprio ritual como forma de fazer algo concreto para expressar seus  sentimentos, como escrever cartas, mensagens ou comprar presentes. Em momentos significativos como o Dia das Mães, o dia do nascimento da criança, o dia da entrega em adoção e Natal são ocasiões muito propícias à prática desses rituais particulares.

Em sua análise, Motta alerta sobre o problema da “gravidez de repetição”, pois, quando o luto não é devidamente elaborado, as mães poderão ter outros filhos e entregá-los numa sequência preocupante. Há que considerar também a possibilidade de a mulher engravidar na tentativa de preencher o vazio deixado pelo filho entregue e atribuir ao novo bebê o lugar de substituto, atitude que pode trazer sérias consequências psicológicas para ele.

Considerações Finais

A separação entre a mãe e o filho entregue em adoção comumente é vista como abandono e desperta indignação, pois nos remete ao mito do amor materno e a questões emocionais de forte significação. A pesquisa de Motta evidencia o equívoco presente na ideia de que a mãe que entrega não ama seu filho, não tem interesse por ele. Na realidade, ela sofre violências sociais e psicológicas. Por vezes, desiste do sonho de criá-lo por entender que não tem condições de maternar adequadamente, de lhe oferecer uma vida feliz. O visível sofrimento das mulheres, objeto do referido estudo, anula qualquer afirmação de indiferença na relação com o filho entregue em adoção.

A bibliografia sobre o tema informa que a mãe vive momentos de profunda tristeza, sensação de fracasso ou culpa. Sendo assim, o uso (insistente) do termo entrega, em substituição ao termo abandono, procura mostrar que o ato que separa a mãe do filho pode estar repleto de amor e preocupação com ele, ao contrário da ideia presente no imaginário social.

A entrega de um filho é uma decisão difícil e tem consequências por toda a vida.  Por sua relevância, leva a reconsiderações e isso faz parte do processo de superação do luto. As mães avaliam constantemente seus sentimentos. Ao mesmo tempo, são vistas como egoístas pela sociedade e não recebem assistência capaz de auxiliá-las na superação de seus traumas, situação que faz com que se desvalorizem como indivíduos.

A mulher sofre recriminação quando decide não criar o filho. Por outro lado, pode enfrentar atos ou palavras de descontentamento ao ficar com a criança quando não tem as devidas condições para o atendimento de suas necessidades. O filho, ao atingir uma idade em que esteja preparado para julgar, o faz sem conhecer as causas de sua entrega e, muitas vezes, sem saber a origem de sua história de vida.

O estigma social e a falta de informações fundamentais sobre a decisão da mãe de não ficar com a criança dificultam a compreensão desse aspecto nos processos de adoção, levando-nos à indiferença em relação a essas mulheres, seja como membros da sociedade, seja como profissionais.

No desenvolvimento de seu estudo sobre o tema adoção, a psicóloga observa a existência de uma contradição profunda na sociedade: ao mesmo tempo em que se valoriza as relações consanguíneas, “abandona-se” as mães biológicas. Diante desse quadro, destaca a necessidade de avaliarmos o real interesse da mãe pela criança, procurando conhecer seu comportamento e estado emocional. Mostra a importância desta discussão ocorrer em grupos interdisciplinares para o aperfeiçoamento do trabalho neste campo de atuação. Familiares, amigos e colegas devem ser conscientizados de que essas mulheres precisam de compreensão e apoio. A psicóloga fala também sobre a relevância de tentarmos conter o hábito de julgar o outro e rever nosso sistema de pensamento que, quase sempre sedimentado, nos distancia de determinadas situações humanas, possivelmente para não termos que enfrentar novas realidades.

Dissertação de mestrado transformada em livro, o trabalho de Motta foi desenvolvido com o propósito de “conhecer e identificar alguns dos fatores presentes na entrega do filho em adoção pela mãe biológica, sejam pessoais, familiares, institucionais ou sociais” (p. 131). Ela utilizou o método qualitativo de pesquisa e, por meio de entrevistas semidiridas, realizou estudo de caso (mãe M1), cujo material norteia a análise de conteúdo. Os dados coletados em entrevistas com outras 10 mulheres, em situação de pré e pós-parto, subsidiaram de modo significativo o estudo em questão. Os encontros com as participantes ocorreram em uma instituição de abrigo, na cidade de São Paulo.

As abordagens apresentadas neste post referem-se às discussões teóricas que se encontram no capítulo intitulado “O luto da mãe que entrega seu filho em adoção”. Trata-se da terceira parte do livro “Mães abandonadas: a entrega de um filho em adoção”, que se encontra em sua terceira edição, publicada em 2008. Maria Antonieta Pisano Motta é psicóloga e psicanalista. Realiza estudos nas áreas de Psicologia Clínica e Jurídica. Trabalha no Estado de São Paulo.

Redação: por AtoEscrito

REFERÊNCIA

MOTTA, Maria Antonieta P. Mães abandonadas: a entrega de um filho em adoção. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

Livros mencionados neste post e que, entre outras obras, fizeram parte do levantamento bibliográfico que fundamenta a pesquisa da psicóloga:

BROMBERG, M. H. P. F. Luto: a morte do outro em si. In: BROMBERG, M. H. P. F. et alii. (Org.) Vida e morte: laços da existência. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.

DOKA, K. J. Disenfranchised grief. In: DOKA, K. J. Disenfranchised grief: recognizing hidden sorrow. New York: Lexington Books, 1989.

JONES, M. B. Birthmothers: women who have relinquished babies for adoption tell their stories. Chicago: Review Press, 1993.

KAUFFMAN, J. Intrapsychic dimentions of disenfranchised grief. In: DOKA, K. J. (Org.) Disenfranchised grief: recognizing hidden sorrow. New York: Lexington Books, 1989.

KOVACS, M. J. A morte em vida. In: BROMBERG, M. H. P. F. et alii. Vida e morte: laços da existência. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.

LEITÃO FERNANDES, M. L. B. Mãe não há só uma: o processo de Serviço Social quanto ao consentimento para a adoção de recém-nascidos numa grande maternidade urbana. São Paulo, 1989. (Dissertação de Mestrado), PUC/SP.

LAPLANCHE, J. e PONTALIS, B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1970.

SHAND, A. F. The foundations of character. 2. ed. London: McMillan, 1961.

 

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