Natureza e produção social do espaço urbano

Praça da Sé, cidade de São Paulo.

Algo que as gerações do presente precisam considerar prioritário na vida social é a possibilidade de planejar a natureza. Essa possibilidade situa-se entre duas vertentes no cenário atual: o desenvolvimentismo e o conservacionismo. Na primeira, temos o primado da razão técnica, o domínio do homem sobre a natureza, sendo esta reduzida à condição de matéria-prima sobre a qual se baseia a produção e o desenvolvimento social. A segunda vertente constata a finitude da natureza. O crescimento da reprodução humana em sociedade é maior do que a reposição necessária dos recursos naturais. Isso obriga a humanidade a um crescimento ajustado à conservação de sua base natural.

Precisamos pensar as sociedades e os ecossistemas como uma totalidade, visto que se constituem em conjuntos vivos e interativos. Existe um tempo ecológico na história que difere do tempo econômico, cultural e político. Sendo assim, não há correspondência entre as temporalidades do meio ambiente e a duração de vida das gerações.

Não há reversibilidade na escala temporal natural. Quando as temporalidades da história humana ultrapassarem as temporalidades da história ecológica, certos limites serão excedidos de maneira definitiva, sem possibilidade de renovar os ecossistemas.

Atualmente, evidenciam-se fenômenos globais preocupantes no que diz respeito ao desequilíbrio entre sociedade e meio ambiente: práticas rurais e urbanas predadoras de recursos naturais limitados, perturbações climáticas, efeito estufa, construção desenfreada de grandes represas hidroelétricas, permanência do crescimento demográfico, com taxas muito elevadas no Oriente e no Hemisfério Sul.

No Brasil, podemos citar como exemplo a cidade de São Paulo, lugar onde as noções de cidade, de urbanidade e de cidadania se tornam frágeis. Esses conceitos estão sendo banalizados por agressões diárias aos espaços públicos como a ocupação indevida das várzeas dos rios, impermeabilização abusiva do solo, comprometendo a drenagem da bacia hidrológica da cidade. O que se observa é a anulação do espaço livre, a desvalorização de sua paisagem e crescente alienação ambiental no espaço urbano. A vida urbana torna-se agressiva e pouco segura e isso resulta do descaso da sociedade em enfrentar os problemas socioambientais que ela mesma cria.

É nesse sentido que dizemos que a cidade se transforma no local do não pertencimento, da desorientação. Agrava-se a perda da qualidade de vida urbana, com índices altos de contaminação atmosférica no inverno e efeitos catastróficos das enchentes no verão.

A dinâmica social, econômica e cultual do país exige reformulações conceituais que devem se concretizar em projetos para as cidades. É preciso repensar a estruturação de espaços urbanos livres, incluindo questões relativas à paisagem e sua dimensão ambiental. O objetivo para a definição de um sistema de espaço livre deve ser uma tentativa para resolver os problemas existentes na atual crise ambiental. Para isso, devemos ter melhor entendimento das relações entre cultura e natureza, respeitar o lugar da natureza na produção social do espaço urbano, conceber os espaços livres como um processo de socialização de espaços naturais. Por fim, responder ao grande desafio colocado pela crise ambiental hoje: fazer com que a cidade construa uma relação sustentável com as águas, com o clima, com o relevo, com o ar, com a vegetação nativa e com outros elementos do ecossistema.

Um dos propósitos que se colocam para a atividade de planejamento e projeto de paisagem é reverter o processo de alienação da população em relação ao espaço da cidade e a sua base natural, bem como expor as potencialidade da paisagem como algo capaz de despertar a consciência ecológica nos cidadãos e promover uma cidadania ambiental. A natureza age no interior das cidades. A drenagem das águas das chuvas, as ilhas de calor, a estabilidade dos solos, o subsolo, o crescimento das árvores e o fluxo dos rios atuam ao mesmo tempo dentro das cidades. Assim, em um planejamento ambiental, há que considerar os processos biofísicos básicos que estruturam o desenvolvimento urbano para evitarmos problemas futuros, seja a curto, médio ou a longo prazo.

Consideramos planejamento o ato de programar o uso de recursos físicos e humanos, unindo conhecimento técnico e científico, tendo em vista proporcionar alternativas para a utilização dos espaços. Consideramos paisagem o local onde se desenvolvem processos humanos e naturais. As paisagens se transformam inevitavelmente, seja por meio de processos naturais, seja pela ação do homem, causando maior ou menor estabilidade dos ecossistemas (OSEKI e PELLEGRINO, 2004).

A combinação de fatores naturais e culturais que dão origem à paisagem define elementos visíveis: campos, matas, lagos, rios e cidades. Esses elementos e a forma como são utilizados refletem a cultura dos habitantes. O planejamento da paisagem com base em princípios conservacionistas defende compatibilizar as intervenções humanas com a capacidade dos ecossistemas de absorver os impactos advindos dessas atividades previsíveis, manter a maior integridade possível nos processos e ciclos vitais, atender às necessidades sem esgotar a capacidade das futuras gerações de atender às próprias necessidades.

Os desafios do planejamento e da posterior gestão ambiental serão superados dando a devida atenção às questões socioambientais de grande relevância: saneamento básico, abastecimento e drenagem da água, preservação conjunta da sócio e da biodiversidade, recursos paisagísticos, circulação de pessoas, sistema de transporte, desigualdades sociais, relações socioculturais e comunitárias.

Redação: AtoEscrito

REFERÊNCIA

OSEKI, Jorge H.; PELLEGRINO, Paulo R. M. Paisagem, sociedade e ambiente. In: PHILIPPI JR., Arlindo; ROMÉRO, Marcelo de A.; BRUNA, Gilda C. Curso de gestão ambiental. Barueri, SP: Manole, 2004.

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