Kabengele Munanga é homenageado com o Prêmio USP de Direitos Humanos

O antropólogo Kabengele Munanga é o homenageado de 2018 no Prêmio USP de Direitos Humanos, momento em que o evento atinge sua 15ª edição. Desde o ano 2000, a condecoração traduz o reconhecimento a pessoas e instituições que tenham contribuído de modo significativo para a disseminação dos Direitos Humanos no Brasil e, consequentemente, a construção de um mundo melhor para todos.

Morando neste país há mais de 40 anos, o professor e pesquisador realizou trabalhos nas áreas de Antropologia da África e da População Afro-Brasileira, destacando-se no cenário nacional em temas como o racismo, identidade negra, multiculturalismo, políticas antirracistas e educação das relações étnico-raciais. Tem sido personalidade de atuação relevante em defesa de políticas de ações afirmativas, como as cotas.

Munanga nasceu em 1942, na aldeia de Bakwa Kalonji, na República Democrática do Congo, onde recebeu a educação primária, secundária e superior. Graduou-se em Ciências Sociais (Antropologia Social e Cultural), sendo o primeiro antropólogo formado na Université Officielle du Congo, em 1969. Em seguida, recebeu uma bolsa do governo belga para fazer pós-graduação na Bélgica, mas surgiram obstáculos em seus projetos pouco tempo depois, no início dos anos 70, com a ditadura da recém-criada República do Zaire.

Ele veio para o Brasil e concluiu seu doutorado na Universidade de São Paulo. Nesta instituição trabalhou como professor, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia, vice-diretor do Museu de Arte Contemporânea e diretor do Centro de Estudos Africanos. Atualmente aposentado pela USP, exerce, desde 2014, atividades na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira, como professor visitante sênior.

Munanga considera difícil definir quem é negro no Brasil, um país que desenvolveu o desejo de branqueamento, algo que compromete a questão da identidade. Seus estudos mostram que os conceitos de negro e de branco têm fundamento etno-semântico, político e ideológico. Quando se coloca em questão políticas de ações afirmativas, o conceito de negro torna-se complexo. Ele sempre se posicionou favorável à concessão de cotas para negros na universidade e para outros segmentos da população que não tiveram oportunidade de frequentar escolas da classe média ou alta. E lembra que, num país com tantos problemas sociais, precisamos formular políticas específicas para resolver as desigualdades, em favor de negros e de brancos pobres.

A questão essencial não é a existência ou não de cotas, mas o desafio de abrir caminhos para aumentar cada vez mais a participação do negro no ensino superior de qualidade e, ao mesmo tempo, considerar a urgência da luta política e social para a melhoria da escola pública. Esses ideais norteiam o discurso, as pesquisas, as produções escritas e atividades de militância do professor, cuja relevância na vida cultural do país lhe propiciou receber a Ordem do Mérito Cultural em 2002. Sua atuação na área dos direitos humanos é reconhecida pelo movimento negro, pela sociedade e pela instituição que lhe presta condecoração.

Nas edições anteriores, o Prêmio USP de Direitos Humanos homenageou pessoas bastante conhecidas dos brasileiros, como a médica pediatra Zilda Arns Neumann (1934-2010), primeira a receber a premiação. Ela foi fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança. Seu irmão, o frade franciscano e arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), recebeu o mérito em 2007 e o médico oncologista e escritor Drauzio Varella, em 2016, entre outras personalidades.

Redação: AtoEscrito.com



REFERÊNCIAS

ESTUDOS AVANÇADOS. A difícil tarefa de definir quem é negro no Brasil. Entrevista Kabengele Munanga. Estudos Avançados 18 (50), 2004.

A TARDE. Kabengele Munanga: “É preciso unir as lutas, sem abrir mão das especificidades”. 20 jun. 2018. Entrevista por Tatiana Mendonça. Acesso: 20 jun. 2018. Disponível em: www.geledes.org.br.

Wikipedia.org. Acesso: 20 jun. 2018.

YAMAMOTO, Erika. Kabengele Munanga é o homenageado no 15º Prêmio USP de Direitos Humanos. 19 jun. 2018. Acesso: 20 jun. 2018. Disponível em: jornal.usp.br.

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