Outubro é o mês do aniversário de Carlos Drummond e Vinicius de Moraes

Iniciamos a publicação de textos da categoria Poetas no mês de junho. Agora, estamos dando continuidade e sempre consideraremos os aniversariantes do período. Os primeiros serão autores brasileiros; posteriormente, os de outras nacionalidades. O momento atual é de destaque para Carlos Drummond e Vinicius de Moraes.

Carlos Drummond de Andrade (31 de out. de 1902 – 17 de ago. de 1987) nasceu em Itabira (MG). Posteriormente, foi para Belo Horizonte e estudou no Colégio Arnaldo; frequentou também o Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, e fez o curso de Farmácia na Universidade Federal de Minas Gerais. Durante a maior parte da vida, trabalhou como funcionário público, embora tenha começado a escrever cedo e continuado até a morte. A exemplo de outros modernistas, considerou a proposta de Mário e Oswald de Andrade, adotando o verso livre. Além de poesia, escreveu livros infantis, contos e crônicas.

De suas produções, selecionamos para este post o poema intitulado “Eu, Etiqueta”.

EU, ETIQUETA

“Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar
cada vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.”

Vinicius de Moraes (19 de out. de 1913 – 9 de jul. de 1980) nasceu no Rio de Janeiro (RJ). Poeta lírico, notabilizou-se pelos seus sonetos. Sua produção inclui literatura, teatro, cinema e música, mas considerava a poesia sua maior vocação e outras atividades artísticas derivadas do fato de ser poeta. No campo musical, realizou trabalhos em parceria com Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Toquinho, Baden Powell e Carlos Lyra, entre outros.

De suas criações poéticas, selecionamos “Rosa de Hiroshima” para exposição aqui.

ROSA DE HIROSHIMA

“Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada.”


 

 

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